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A Amazônia pré-colombiana

  • Foto do escritor: rayta35
    rayta35
  • 15 de mai. de 2020
  • 5 min de leitura

A Amazônia como nós conhecemos é fruto de uma construção, com quase cinco séculos de estigmatização. Entretanto, a história da região começa muito tempo antes da chegada dos europeus às Américas. Vale dizer que, por muito tempo, esse imaginário de “paraíso exótico", inóspito e pouco habitado, sobre a Amazônia não permeou somente o senso comum, como também, o debate dentro das universidades e comunidade científica. Assim, estudar esse tema é antes de tudo, romper com preconceitos e visões reducionistas, no que se refere principalmente à lógica de vida nativa e novas linhas de pesquisa.


Desse modo, como ressalta a arqueóloga Anna Curtenius Roosevelt, no seu capítulo: Arqueologia amazônica, no livro História dos Índios no Brasil (1992),  muito se questionava sobre as sequências culturais e articulação dos povos amazônicos, tendo em vista que as teorias mais aceitas, até então, foram as que tentaram evidenciar que a agricultura, as cerâmicas e a complexidade seriam advindas de ramificações e migrações andinas.


Assim, acreditava-se que grupos humanos que teriam se deslocado para o leste da bacia amazônica, e seu desenvolvimento teria sido ligado diretamente com os fenômenos culturais incaicos, projetando assim, aos tempos pré-coloniais da Amazônia, com base nas estruturas atuais das comunidades tribais a ideia de que essa região fora um [...] “produto da degeneração das culturas andinas no pobre ambiente tropical úmido” (ROOSEVELT, 1992, p. 54).


Roosevelt, partindo de estudos arqueológicos e análises comparativas de fontes coloniais de viajantes, concluiu que, o título de culturas complexas mais antigas da América do Sul ainda pertence às sociedades andinas, remetentes ao período pré-histórico tardio, por volta de 2500-1000 a.C.


Entretanto, apesar de a complexidade na Amazônia ter aparecido somente mais tarde, o processo de ocupação foi muito anterior aos dos Andes, atuando como uma cultura autêntica, sem influências exteriores.


E seus povoados atingiram patamares inimagináveis, dentro de um processo de longa duração, que foi fundamental ao amadurecimento das técnicas e adaptação ao ambiente tropical, atingindo assim uma densidade demográfica que caracterizou as civilizações na Amazônia como imensos centros urbanos, destacando-se em tamanho, população e complexidade.


A Amazônia, por volta de 2.800 a.C. em grande medida se assemelhava com as estruturas tribais atuais, levando em consideração que, as aldeias eram extremamente modestas, e a agricultura era de subsistência. Ao que tudo indica, esta estrutura simplificada desapareceu por volta do primeiro milênio a.C., dando espaço a uma agricultura extensiva, principalmente no que se refere ao cultivo de plantas e sementes, o que resultou na expansão e ocupação de toda a várzea amazônica e consequentemente, influenciou o surgimento de culturas extremamente complexas.


À vista disso, vale ressaltar que, o estudo dos chamados “Cacicados Complexos” da Amazônia, proposto por Roosevelt, tornou-se uma tarefa difícil, pois, o contato com o europeu, acabou por desarticular toda a lógica de organização dos cacicados pré-coloniais, resultando em processos migratórios em massa, onde, em um ou dois séculos todos os Cacicados Complexos desapareceram completamente, e nada, nem mesmo as comunidades tribais atuais se assemelham com a grandiosidade do que foram um dia as sociedades indígenas da Amazônia pré-colonial.

Então, se esses Cacicados complexos e grandes cidades desapareceram com o processo de colonização, como podemos resgatar a história dessas populações, se elas não existem mais?

Por um lado, temos a História, Arqueologia, Etnologia, Antropologia e diversas outras áreas que resgatam fragmentos desse passado, como peças de um quebra-cabeça, e essas peças vão se alocando em seus respectivos lugares, conforme as pesquisas vão avançando.


Por outro lado, temos as produções dos europeus. Paradoxalmente, os mesmos agentes que foram responsáveis pelo desaparecimento e destruição dessas populações, também atuam de maneira muito importante para o resgate dessas culturas, pois, seus relatos de viagem, são produções riquíssimas, no que se refere às descrições do modo de vida das populações nativas, mesmo que de maneira bastante ficcionalizada, onde fica bem aparente o modo que os europeus viam os nativos.

Em relação à Amazônia, a obra mais importante trata-se do Novo descobrimento do grande Rio Amazonas (1641), do Padre Cristóbal de Acuña. Vale ressaltar que, embora o Jesuíta não tenha sido o primeiro a viajar toda a extensão do Amazonas, ele se encontrou com as populações ribeirinhas, e em sua grande maioria ainda não haviam tido contato com os europeus. O que faz com que seus relatos sejam de extrema relevância para entender parte do passado desta população, mesmo que esta obra seja dotada de diversos preconceitos, devido ao modo que os europeus enxergavam o mundo. Desta maneira como ressalta Esteves (1994): 


Em suma, a tonalidade eufórica da descrição do clima saudável, das terras férteis, das riquezas de todos os tipos disponíveis e da bondade natural dos índios, fazem a Relação de Acuña muito parecida aos primeiros relatos de Colombo ou a Carta de Caminha. Ele produz aquilo que Beatriz Pastor (1986) chama de discurso mitificador, que mostra um universo ficcionalizado, representando a realidade moldada de acordo com seus desejos e sua concepção de mundo. A Amazônia de Acuña é tão perfeita que se não houvesse a praga dos mosquitos, poder-se-ia dizer, à boca cheia, tratar de um imenso paraíso. (ESTEVES, 1994, p. 28)

Algumas características das sociedades amazônicas apontadas nos relatos de Acuña que mostram a complexidade desses povos nativos.


Todo este novo mundo – o chamemos desta forma – está habitado por bárbaros de variadas províncias e nações, das quais posso dar boa fé enumerando-as por seus nomes e indicando sua localização, algumas de vista e outras por informações de índios que nelas estiveram, passam de cento e cinquenta, todas de línguas diferentes, tão extensas e ocupadas por moradores como as vimos por todo trajeto [...]. Tão seguidas estão umas das outras estas nações que, dos últimos povoados de uma, em muitos casos, se pode ouvir lavrar a madeira na outra, sem que tamanha proximidade os obriguem a fazer as pazes, conservando perpetuamente contínuas guerras entre si, nas quais a cada dia se matam e se aprisionam inumeráveis almas. Este é o deságue comum de tanta gente, sem o qual não caberiam em toda aquela terra. (ACUÑA, 1641, p. 105- 107)

Não necessitam as províncias vizinhas do Rio das Amazonas de bens raros: o rio é abundante em pesca, os montes em caça, os ares em aves, as árvores em frutas, os campos em colheita, a terra em minas e os nativos que o habitam possuem grandes habilidades e inteligência para tudo que é importante, conforme iremos ver no decorrer desta história. (ACUÑA, 1641, p. 73)


[...] se o vasto império da Etiópia se eleva com tão glorioso nome, por ocupar um espaço de novecentas léguas. Se a grandiosa China, por encerrar em duas mil léguas de fronteiras quinze diferentes reinos, espanta o mundo com sua grandeza. E se a extensão que se divulga do Peru se reduz a cerca de mil e quinhentas léguas, medidas desde o Novo Reino de Granada até os confins do Chile. Com muito mais razão pode-se dar ao território descoberto do Rio das Amazonas o título de Grande, pois no espaço de quase quatro mil léguas de contorno encerra mais de cento e cinquenta nações de línguas diferentes, suficiente, cada uma delas, para formar sozinha um vasto reino. Todas juntas formam um novo e poderoso império [...]. (ACUÑA, 1641, p. 35-37)


Referências Bibliográficas: 

ACUÑA, C. Novo descobrimento do Rio Amazonas. Montevideo: Oltaver S.A. Buenos Libros Activos, 1994. [Original de 1641]

BRANCO, S. M. O desafio amazônico. São Paulo: Editora Moderna, 2004.

BERTAZONI, C.; SANTOS, E.; FRANÇA, L. (Org.). História e arqueologia da América indígena: tempos pré-colombianos e coloniais. Florianópolis: Editora UFSC, 2017.

DIAS, C. L. O comércio de prisioneiros indígenas e a construção da Amazônia brasileira. In: BERTAZONI, C.; SANTOS, E.; FRANÇA, L. (Org.). História e arqueologia da América indígena: tempos pré-colombianos e coloniais. Florianópolis: Editora UFSC, 2017. p.311-324.

ESTEVES, A. R. Introdução. In: ACUÑA, C. Novo descobrimento do Rio Amazonas. Montevideo: Oltaver S.A. Buenos Libros Activos, 1994. p.06-31 FAVRE, H. A civilização Inca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1987.

MAFRA, S. S. A visão amazônica do pe. Cristóbal de Acuña: da viagem à invenção da Amazônia. Língua e Literatura. n. 30. p. 217-234. 2010-2012

MEGGERS, B. J. Amazônia: a ilusão de um paraíso. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.

ROOSEVELT, A. C. Arqueologia amazônica. In: CUNHA, M. C. (org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras; Secretaria Municipal de Cultura; FAPESP, 1992, p. 53-86

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