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As entrelinhas da História

  • Foto do escritor: Vivian Maria Korb
    Vivian Maria Korb
  • 8 de mai. de 2020
  • 3 min de leitura

Atualizado: 27 de mai. de 2020


Para conseguirmos compreender a importância das entrelinhas para a História primeiro vamos refletir sobre a importância das estrelas para os navegadores: são as estrelas que iluminam as noites escuras esquecidas pela Lua e guiam os navegadores mais astutos, que tenham a habilidade de lê-las, permitindo que estes descubram mundos novos ou cheguem a mundos já conhecidos por caminhos ainda inexplorados. Agora pensem no navegador como o historiador, ou seja, aquele que tem como seu ofício a História; na noite como as fontes históricas e nas estrelinhas como as “entrelinhas”. O historiador que lê as entrelinhas de suas fontes consegue apreciá-la por completo, apreendendo algo que seus produtores desconheciam estar ensinando. Aspecto contemplado principalmente pelo viés historiográfico culturalista. Complicado? Vamos pensar por partes.


A matéria-prima da História são suas fontes e o que seriam essas fontes? São todas e quaisquer contribuições que estejam relacionadas ao fazer do ser humano, ou seja, se o ser humano fez, é fonte. O caderno de receitas da minha avó e uma fonte histórica, as fotos que você tirou na sua última viagem são fontes históricas, aquele filme conceitual difícil de entender é uma fonte histórica e assim por diante. É fundamental destacar que não existe uma ordem de importância entre as fontes: o post que você fez no Twitter sobre o Brexit é tão relevante como o documento oficial da saída do Reino Unido da União Europeia. Cada uma dessas fontes possibilitaria aos historiadores realizar uma pesquisa diferente sobre tal acontecimento, cada qual com sua devida contribuição historiográfica.


Mas não se iluda a pensar que ler as fontes é um trabalho fácil, elas são como enigmas, o quebra-cabeça favorito do historiador, ao qual a resposta se esconde na subjetividade da fonte. Mas, porque subjetivas? Pois foram produzidas por seres humanos, assim como eu e você, seres imperfeitos, que reproduzem as pressões do tempo em que vivem, que têm um modo de pensar próprio, que seguem interesses, ideologias, religiões e que são moldados pela sua própria História. Afinal, não somos isoláveis do mundo em que vivemos, concorda? Qualquer vestígio histórico produzido por um ser humano, ou seja, qualquer fonte, carrega consigo um pedaço de seu criador.


A subjetividade das fontes se encontra na leitura nas entrelinhas, a leitura do espaço vazio (que nada de vazio tem), na leitura daquilo que não foi dito, mas que carrega inúmeros significados e descobertas consigo. É um trabalho sutil, que nunca está completamente claro, que varia de caso a caso, como o de um detetive, que reconstrói o percurso das evidencias deixadas em um crime para solucionar o mistério. Uma grande investigação histórica em busca de analisar o que foi dito, buscando um não-dito. Por isso deve ser realizado com delicadeza e paciência. Não se devem forçar respostas ideais para perguntas pré-definidas, o historiador deve se desapegar de sua pesquisa utópica e abraçar a fonte em sua integralidade, expondo seu testemunho sobre o passado em sua totalidade.


E quais são os mistérios desvendados quando o historiador realiza essa meticulosa leitura nas entrelinhas? Uma visão de como em determinado tempo e espaço se articulavam as estruturas do mundo social no qual a fonte em questão foi produzida, uma visão que os seus produtores desconheciam estar transmitindo. É isso que a fonte carrega consigo em suas entrelinhas, uma passagem para outras sociedades, outras formas de se entender o mundo, outros costumes, ideias, crenças, mitos, valores, modos de pensar e de agir. Quando o historiador compreende a sociedade que criou a fonte, consegue interpretá-la de uma maneira que respeite sua complexidade. Mais do que uma análise do contexto de produção da fonte ou de seu produtor, agora o historiador consegue acessar a multiplicidade de significados que as fontes históricas escondem à sete chaves, ou melhor: bem de baixo do nosso nariz, nas suas entrelinhas.

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