top of page

Identidade e paranismo

  • Foto do escritor: Marcos A. Manoel Junior
    Marcos A. Manoel Junior
  • 22 de mai. de 2020
  • 5 min de leitura

Atualizado: 24 de mai. de 2020

Ao longo da semana, trouxemos um conceito, que a princípio parece difícil, mas que ajuda a entender um pouco a nossa noção de memória, sentimento e pertencimento. Os lugares de memória.


Quando falamos de Curitiba, logo nos vêm à mente lugares que nos fazem lembrar da cidade, ou que criamos em nosso imaginário como símbolos que a representam. Provavelmente você já caminhou pelo calçadão da Rua XV e ficou se perguntando o porquê daquelas formas geométricas no meio dele, ou já ouviu a expressão “Pinheiro do Paraná”? Se sim, esse texto pretende contar um pouco da História de um dos movimentos que ajudaram a criar a ideia de identidade do "ser curitibano".


Não vamos debater conceituações de historiadores ou sociólogos que trabalham memória, representações, discursos, identidade, tradição. Mas precisamos entender que a História é um discurso sobre o passado. E esse discurso é uma escolha, geralmente das instituições dominantes, que ajudam a criar representações que, com o passar do tempo, se difundem no imaginário do grupo social, moldando os sentimentos e a forma de como eles se veem, e principalmente, as escolhas das memórias que querem ter.


Dessa forma, podemos adentrar nos caminhos da História de Curitiba, e desvendar o porquê costumamos ver certos símbolos em ruas, praças e na bandeira do estado, e entender o porquê de essa concepção ser uma “tradição inventada”.


Voltemos para os anos de 1840, quando Curityba ainda era a 5ª comarca de São Paulo, ou seja, sequer existia a Província do Paraná ainda. Mas logo a história iria mudar. Com o passar dos anos, desenvolveu-se uma rica rede de comércio da erva-mate, – o mesmo chazinho da Matte Leão que você toma nos dias quentes ou o chimarrão que estou tomando enquanto escrevo esse texto. Esse comércio foi essencial para que em 1853, a região que hoje compreendemos como Paraná, se separasse de São Paulo, formando a Província do Paraná - com sua capital sendo a cidade de Corityba.


Percebeu que estamos falando do século XIX, não é? Pois então, um historiador famoso chamado Eric Hobsbawm, costuma chamar esse século de “século dos nacionalismos”, pois, em várias partes do mundo (Europa, principalmente), as pessoas estavam buscando por esse sentimento de pertencimento e nacionalidade. E isso não foi diferente aqui no Brasil.


Contudo, nesse período estávamos vivendo o ápice da Revolução Industrial, e um extenso debate sobre a proibição da escravidão. Mas acima de tudo, um debate sobre o branqueamento populacional e o povoamento das terras devolutas. Desse modo, passou-se a buscar por imigrantes europeus, principalmente povos germânicos e da região da Itália; e mais para o final do século, de Sírio-libaneses e povos advindos de onde hoje é a Polônia. Claro, outros povos chegaram à região, trazendo sua cultura e práticas sociais. Contudo, lembre-se que estamos falando da formação de uma identidade brasileira, ou ainda, de uma identidade “paranaense” para a região, de forma que esses estrangeiros vieram sobretudo para ajudar a criar uma identidade europeizada (não vou adentrar muito nesse tema, pois pretendo escrever um artigo abordando ele).


Lembram do comércio da erva-mate? Pois então, seus empresários, os “ervateiros”, queriam acima de tudo, industrializar o estado, pois, a demanda pelo produto crescia cada vez mais. Nomes como Agostinho Leão Junior, passaram a financiar obras de reestruturação da cidade, além de termos a construção da Ferrovia Paranaguá-Curitiba (já viram nosso post de ontem sobre o Museu Ferroviário?). Curitiba caminhava-se para a modernidade. E, com o advento dos ideais positivistas, trazidos pela proclamação da República em 1888, passou-se a olhar para símbolos que concebessem uma ideia de progresso, uma procura pela perfeição científica e que representasse o “ser paranaense”.


Assim, nasceu o Movimento Paranista, que contou com a participação de intelectuais, artistas e homens de letras, que passaram a construir uma forma de identidade, que envolvesse o homem branco europeu e o “herói” indígena (sugiro a leitura das obras de José de Alencar, que utilizam da figura do “bom selvagem”, como o Guarani e Iracema, que ajudam a entender o imaginário da época). Lembra que no começo escrevi “Curytiba” e “Corityba”? O próprio nome da cidade já envolvia o principal símbolo do movimento, da palavra Guarani: “Terra de muito pinhão”, não demorou para que o pinheiro fosse utilizado pelos líderes do movimento e fosse imortalizado nas obras de Alfredo Andersen e nas esculturas de João Turin.


Desse modo, todo o imaginário local passou a ser instruído para as representações do Paranismo. Obras de artes, construções, calçadas, postes de luz, além da busca por mitos fundadores e de heróis, como o General Carneiro, que passaram a ser celebrados como exemplos da existência do "ser paranaense".


Romário Martins e Wilson Martins logo escreveram “A História do Paraná”, reafirmando o mito fundador da cidade, em que os bandeirantes paulistas subiram a serra e nas planícies do Bairro Alto encontraram uma tribo indígena, e seu cacique, Tindiquera, num gesto de solidariedade, apontou para onde hoje fica a Igreja Matriz, pois lá era a “Terra de muito pinhão”.


A figura desses dois historiadores é muito importante para entendermos os discursos em torno da História do Paraná e das discussões do imaginário sobre a sua identidade. Ao escreverem uma história respaldada pelo positivismo, praticamente apagaram a existência da escravidão, que manchava a ideia de uma cultura moderna e próspera. Além de unirem o pinheiro, que trazia consigo um ideal de cidade moderna e cosmopolita, com a erva-mate, de tradição indígena, e que servia de inspiração para todo o movimento. Esses símbolos, embora encontrados em outras regiões do estado, possuíam uma forte ligação apenas com a região de Curitiba, pois era lá que se concentravam a grande massa dos intelectuais e das famílias que financiaram a criação do movimento.


Assim, a "História do Paraná" que fora criada, acabou sendo uma representação da visão que a sociedade curitibana tinha sobre ela mesma. O movimento Paranista acabou por moldar apenas o sentimento do “ser curitibano”, pois o seu discurso não foi assimilado por outras regiões do estado. E ainda podemos encontrar resquícios do movimento pela cidade, como no calçadão da rua XV. Além dele ter sido ressignificado nos anos de 1970, ajudando a criar “o mito da cidade modelo”, mas isso eu deixo para um outro artigo.


Referências:

HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (orgs). A invenção das Tradições/ Eric Hobsbawm e Terence Ranger (organizadores); tradução de Celina Cardin Cavalcante. – 13º ed. – Rio de Janeiro/ São Paulo: Paz e Terra, 2020. 392 pp.

KANIGOSKI, Luiz Carlos. Movimento Paranista. In: Um pouco de Arte do Paraná. Curitiba, 2005. Disponível em: https://docs.ufpr.br/~coorhis/kimvasco/paranismo.html. Acesso em: 22 maio 2020.

NADALIN, Sérgio Odilon. Paraná: ocupação do território, população e migrações/ Sérgio Odilon Nadalin. 1. ed. Curitiba: SEED, 2001. 107 p. v. 1. (Coleção História do Paraná; textos introdutórios)

SANTOS, Carlos Roberto Antunes Dos. Vida Material Vida Econômica. 1 ed. Curitiba: SEED, 2001. 96 p. v. 2. (Coleção História do Paraná; textos introdutórios)

SEYFERTH, Giralda. Colonização, imigração e a questão racial no Brasil. Revista USP, São Paulo, n. 53, p. 117-149, mar. 2002.

TRINDADE, Etelvina Maria De Castro; ANDREAZZA, Maria Luiza. Cultura e Educação no Paraná: 1. ed. Curitiba: SEED, 2001. 129 p. v. 3. (Coleção História do Paraná; textos introdutórios)

WACHOWICZ, Ruy Christowam. História do Paraná. 6. ed. Curitiba: Gráfica Vicentina Ltda., 1988. 276 p.

Posts recentes

Ver tudo
História para quem?

O presente artigo pretende trazer discussões iniciais sobre uma série de debates acerca do campo em que o Ìotopía se encontra, a História...

 
 
 

Comentários


bottom of page