O "monstro" da Pós-modernidade?!
- rayta35
- 26 de jun. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 4 de jul. de 2020
Você na certa já ouviu a palavra pós-modernidade. Mas você sabe o que esse termo significa? Por que ele é tão polêmico? É possível afirmar que na pós-modernidade a única verdade é que a verdade é uma grande mentira? Dá pra afirmar ainda que a pós-modernidade é o grande vilão da atualidade? Bom, antes de entrar nessas questões mais sensíveis e caras à sociedade, precisamos conceituar o que é a pós-modernidade.
Longe de ser um consenso, de acordo com o Dicionário dos Conceitos Históricos (2009), pós-modernidade refere-se às novas perspectivas acerca da leitura da realidade, onde o indivíduo não está mais imbuído dentro de um pensamento ligado às forças institucionais, como a Igreja, família, Estado, e assim, dotado de um individualismo, e principalmente influenciado pelos processos pós-industriais e pós-coloniais que o ocidente sofreu, o indivíduo passou a ler de inúmeras maneiras o seu cotidiano e/ou os processos históricos, e estes passaram a ser de propriedade individual, uma verdade questionável entre as outras verdades produzidas pelos demais indivíduos pós-modernos, o que consequentemente deu visibilidade às minorias, às culturas que sempre foram marginalizadas nessa construção histórica.
Antes do advento da pós-modernidade as ciências estavam fragmentadas. Não conversavam entre si, e o mundo era explicado por visões que eram legitimadas pelas instituições. No caso das ciências, pela universidade, já no quesito costumes a legitimidade vinha pela Igreja, ou até mesmo a família. No que se refere aos dilemas éticos e morais muitas vezes eram legitimados pela força das tradições ou até mesmo pelas instituições jurídicas.
Entretanto, após a década de 1960, a partir das obras de nomes como Michel Foucault, Sigmund Freud e Friedrich Nietzsche, o mundo ocidental sofreu uma vidara cultural, o que José D’Assunção Barros (2018) chamou de "giro linguístico". Basicamente, esse fenômeno fez com que houvesse uma interdisciplinaridade, ou até mais que isso, uma transdisciplinaridade nos saberes históricos, de acordo com Morin (2014), o que fez com que gradativamente, fosse entendido que a linguagem estrutura o pensamento. Como é possível perceber no artigo: História e Literatura: questões interdisciplinares, da historiadora contemporânea Beatriz Zechlisnki (2003):
No paradigma pós-moderno a distinção dicotômica entre as ciências naturais e as sociais perde o sentido. Nessa distinção existe uma concepção mecanicista da matéria e da natureza a que se contrapõem os novos conceitos de cultura, sociedade e ser humano. A nova fusão das ciências não significa um retrocesso, porque antes a união se dava através das ciências naturais (estas encabeçavam o processo), na pós-modernidade, ao contrário, as ciências naturais são consideradas tão humanas quanto as sociais, pautadas também por um conhecimento cultural e não apenas científico.
Consequentemente, a linguagem é intrínseca ao indivíduo, assim, o conceito de verdade também seria intrínseco a ele, de modo que ao final a história tornara na visão de alguns teóricos, somente discurso, narrativa, ou até mesmo uma ficção. "A verdade tornou-se uma grande mentira".
Essas tendências passaram a influenciar na vida prática das pessoas, tudo se tornou líquido. As relações, os saberes, as convicções e até a própria noção do "ser", o que Bauman (1998) chamou de "O mal-estar da Pós-modernidade". Em suma, pode-se dizer que o consumismo desenfreado, somado ao processo de globalização, são partes fundamentais do "motor" da pós-modernidade.
Por exemplo: os objetos possuíam um "uso" na sociedade moderna capitalista, porém, no processo pós-industrial, pós moderno, ele tornou-se mais que simplesmente "uso", o objeto tornou-se um elemento simbólico. Vamos imaginar um tênis por exemplo, na pós-modernidade ele deixa de ser somente um tênis e passa a ser um "tênis da Nike". O que é consumido nesse processo é o simbólico e não o uso. Ou seja, o conceito de tênis foi desconstruído.
E esse mal-estar extrapola a dimensão de bens e consumo, porque os indivíduos passaram a desconstruir tudo e todos à sua volta. Tudo se tornou líquido, solúvel, questionável e até mesmo detestável. O ápice da pós-modernidade é por exemplo o "mal do século": a depressão. Como foi dito anteriormente, o referencial do "ser" há muito tempo fora esvaziado nesse processo, o que fez com que o indivíduo ficasse à deriva num emaranhado simbólico, podendo afirmar-se como qualquer coisa. Chegou um momento na humanidade em que podemos ser tanta coisa que ao final nos transformamos em "nada".
Entretanto, a pós-modernidade também trouxe coisas benéficas para a sociedade. Como as instituições foram "colocadas em check" no mundo pós-moderno, quem antes era oprimido passou a ter voz e representatividade. Tivemos a partir disso a ascensão dos movimentos sociais como: Movimento Negro, Feminista, LGBTQ+, entre outros. E com isso também tivemos a ampliação e garantia de direitos fundamentais, antes inimagináveis.
À vista disso, vale ressaltar que, pós-modernidade não é consenso como foi dito anteriormente. Ele é fato somente para o pós-modernista. Nesse sentido, pós-moderno refere-se ao tempo histórico em que vivemos e pós-modernismo constitui a linha teórica de pensamento de determinado autor. Por exemplo: este texto que aqui escrevo é uma reflexão pós-modernista, porque refere-se ao pensar a história a partir desse viés. Para um pós-modernista todos são pós-modernos, porém nem todos são pós-modernistas.
E você pode discordar dessa verdade, pois assim é a pós-modernidade.
Referências:
BARROS, J. História e Pós-modernidade. Editora Vozes: Petrópolis, 2018.
BAUMAN, Z. O Mal-Estar da Pós-Modernidade. Jorge Zahar Editora Ltda: Rio de Janeiro, 1998.
MORIN, E. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 2014.
SILVA, K. V.; SILVA, M. H. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Editora Contexto, 2009, p. 338-342.
ZECHLINSKI, B. P. História e literatura: questões interdisciplinares. História em Revista. Universidade Federal de Pelotas. Pelotas (RS), v.9, pp. 213-250, dezembro, 2003.

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