O Presente como História
- Marcos A. Manoel Junior
- 12 de jun. de 2020
- 7 min de leitura
Atualizado: 25 de jun. de 2025
Como todos sabem, estamos passando por um período difícil, “uma crise dentro de uma crise”. De uma crise econômica, passamos para uma crise de saúde que se agravou cada vez mais por conta de uma crise política. Ontem, 11 de junho, passamos das 41 mil mortes por COVID-19, e infelizmente não temos perspectivas para melhoras.
O distanciamento social promoveu uma “reinvenção” de um costume que temos desde o século XIX (para alguns, na verdade, desde o século XV): a fácil aproximação com as pessoas, relações cada vez mais próximas, um mundo globalizado. Pois bem, não podemos mais ficar próximos fisicamente, mas a globalização nos trouxe um elemento que, por exemplo, as pessoas durante a gripe espanhola não tinham: as redes sociais. Longe, porém próximos.
A evolução tecnológica que vimos e vivemos desde o final da década de 1980 é absurda. Seria inimaginável para algum historiador da década de 1960 que ele teria acesso às mais diferentes fontes e referências através de um instrumento portátil que pode segurar com uma das suas mãos: o celular. Isso reinventou a sociedade, e não seria diferente para “a ciência dos homens”.
Nos últimos anos, novos campos (para quem gosta de uma história dentro de caixinhas) começaram a ocupar os espaços nas discussões dos historiadores: “História Digital” e “História Pública”. Até então, a questão a ser posta à mesa era de novas abordagens ou novas perspectivas para o estudo da História através das tecnologias e das mídias, e de como essas tecnologias influenciam o recebimento da História pelas pessoas. YouTube, Instagram, Facebook, Twitter, filmes, jogos, músicas.
Todos esses elementos compõem o cerne de novas abordagens para os estudos históricos, porém, um dos grandes problemas se dá em questões metodológicas. Afinal, de que forma podemos utilizar, ou como podemos utilizar essas tecnologias? As redes sociais servem como meio de divulgação da História ou produzem um novo tipo de História? Que tipo de História está sendo produzida e para quem está sendo produzida?
Claro, são questões que para você, leitor, talvez não façam a mínima diferença, pois são assuntos “acadêmicos” demais e você só quer ler um texto tomando um chá ou um chope (quentão agora no inverno, né!), como forma de se distrair do mundo “apocalíptico” em que estamos vivendo. E te entendo perfeitamente nesse quesito.
Embora a própria prática de eu estar escrevendo e você de estar lendo já configure uma das abordagens que a História está se propondo a desvendar. Afinal, “a ciência dos homens” ou, como o próprio Marc Bloch completou, “dos homens no tempo”, se propõe a discutir não só o passado, mas todas as práticas culturais que o Homo sapiens produziu. De forma que o que estamos fazendo já é História. Como abordou uma amiga historiadora no início da pandemia:
a visão que estudo e que gosto de levar as pessoas a refletirem, é a da História na vida prática. Sim, aquele velho papo de que cada um faz história, que a história está em nossos afazeres, nas ruas, nos filmes e em diversos outros lugares. (TASSOULAS, 2020)
Desse modo, a Stephanie completa seu texto abordando sobre como é viver um fato histórico. “Mas pera, os fatos históricos não são coisas que aconteceram há anos?” Sim e não (como diria uma querida professora). Os fatos históricos são qualquer acontecimento que eu, você ou a Stephanie vivemos, não só eventos relevantes – embora, nesse caso, estejamos vivendo um evento relevante. E uma das discussões que foram postas à mesa dos historiadores é justamente como será a “História pós-pandemia”?
Se já estava difícil achar metodologias e abordagens para as outras questões propostas, imagine agora, afinal, “como os historiadores do futuro irão explicar 2020?”. Mas eu vejo de outra maneira, pois a abordagem da História no pós-pandemia pode ser um encaminhamento para começarmos a responder às questões já abertas. Vocês se lembram dos novos objetos que a História está estudando como fontes? Pois bem, vamos nos atentar a algumas produções que aparecem nesses objetos: os memes.
Os memes são uma das maiores manifestações artísticas e culturais que surgiram com as redes sociais, além de serem fontes riquíssimas para os estudos da História. E não se enganem, não só os memes com temáticas históricas são fontes, mas qualquer um. Embora, nesse texto, eu convide vocês a refletirem sobre dois deles, que claramente possuem temáticas históricas.

O primeiro deles se trata do meme da Nazaré (quem lembra da Senhora do Destino?), como capa para uma nova “era” da trilogia (e depois quadrilogia) do Eric Hobsbawm, que conversa intimamente com um segundo: um tweet que aborda como seria o nome dado ao período em que estamos vivendo hoje.
Mas afinal, quem foi Eric Hobsbawm?
Eric John Ernest Hobsbawm nasceu em 9 de junho de 1917, em Alexandria, no Egito, e morreu em Londres, no dia 1º de outubro de 2012. Assumidamente marxista, Hobsbawm explica, sobretudo em seu conjunto de ensaios Sobre História, que assumiu essa posição por conta de seu contexto, pois ele vivia na Alemanha durante a ascensão de Hitler e não enxergava os liberais e social-democratas como grupos capazes de combater o fascismo. Judeu, logo se mudou com seus tios para Londres, onde anos mais tarde viria a se filiar ao Partido Comunista Inglês, participando como soldado tanto na Guerra Civil Espanhola quanto na Segunda Guerra Mundial.
Suas principais obras, claro, são os livros das “Eras”, nos quais ele aborda “O Longo século XIX”, pois, na sua visão socioeconômica, o século XIX começa com a Revolução Industrial inglesa e se finda com um grande evento: a Primeira Guerra Mundial – que termina com o modelo proposto pela Belle Époque. Tendo, anos mais tarde, escrito A Era dos Extremos – o breve século XX, em que aborda os anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial até o fim da União Soviética em 1991. Essa última é considerada uma das melhores obras do historiador, pois o recorte se passa durante toda a vida dele.
Retomando o Sobre História, Hobsbawm descreve no capítulo 18: “O presente como História”, como nós, historiadores, podemos lidar com a nossa contemporaneidade e como podemos ler e analisar o nosso tempo. Afinal, “toda história é uma história contemporânea disfarçada”. Contudo, uma coisa é escrevermos sobre tempos muito distantes, e outra é escrevermos sobre nosso próprio tempo.
Sei que me alonguei bastante no texto, e você até agora não deve ter entendido aonde eu quero chegar, mas proponho uma abordagem do nosso tempo sobre a História e sobre o fato histórico em que vivemos, através das nossas fontes: os memes.
É difícil para um historiador “prever” o que pode acontecer, o próprio Hobsbawm descreve que, a partir da Segunda Guerra Mundial, se tornou impossível prever o que aconteceria nos anos subsequentes.
Após 1918, outra guerra mundial e até a depressão mundial eram previstas com bastante frequência. Mas, após a Segunda Guerra Mundial, será que os economistas previam os “trinta gloriosos” do grande surto do crescimento mundial? Não. Eles esperavam um declínio de pós-guerra. Predisseram o fim da Era de Ouro no início dos anos 1970? (...). (HOBSBAWM, 2013, pp. 250 – 251)
Mas podemos fazer certos apontamentos do que podemos esperar para esse futuro. Hobsbawm esperava que o último quarto do século XX seria fundamental para os observadores do terceiro milênio. Ora, o próprio escreveu um livro de “previsões” para O Novo Século. Mas o que Hobsbawm não esperava é que seu “breve século XX” não teria terminado em 1991, como ele acreditava.

Lilia Schwarcz, historiadora e antropóloga, dialogou sobre essa questão em seu canal do YouTube. Para a historiadora, o século XXI não começou em 1991 como acreditara Hobsbawm, pois até então, não havia tido uma grande ruptura que explicasse essa mudança (para nós historiadores, desconsideramos a questão do tempo do calendário); afinal, as relações socioeconômicas que nasceram no breve século não foram substituídas, nem mesmo o mundo integrado pela tecnologia das redes (lembram do início do texto?) foi substituído. A historiadora argumenta que com:
um pequeno microrganismo conseguiu parar grandes impérios, como os Estados Unidos, a França, a Alemanha, a China. E até mesmo pequenas sociedades, sociedades tribais, ilhas isoladas... Nada pode conter, a fúria desse microrganismo. (SCHWARCZ, 2020, 00:03:21 – 00:03:42)
Para ela, a pandemia deixou claro que “o mundo em que tudo podemos” não mais existe. Ela escancarou problemas como a desigualdade social, a pobreza extrema. Deixando claro que somos humanos e somos vulneráveis. Um vírus se mostra capaz de mudar relações sociais, de mudar formas de vida. Claro, assim como Hobsbawm descreve que a visão que temos hoje sobre o fato poderá ser diferente da que teremos daqui a 20 ou 30 anos, não podemos desconsiderar que essa pandemia já está sendo transformadora. E, sobretudo no Brasil, a nossa percepção é muito mais relacionada com a abordagem que está se dando para a crise, afinal, “é só uma gripezinha!”.
E o que os memes significam? Os memes mostram como nós, enquanto sociedade, estamos vendo tudo isso. Estando “sobre(vivendo)” um fato histórico e nos preocupando de como vamos enxergá-lo daqui para a frente. Os mesmos demonstram que a nossa percepção enquanto sociedade busca uma resposta para o período, mesmo que não tenhamos clareza de para onde vamos. Mostram que a História faz parte da nossa construção e nos baseamos nos escritos de um historiador – que completaria 103 anos essa semana – que ainda continua no imaginário, e sua obra ainda ecoa para responder o que será dos tempos do pós-pandemia.
Mas, claro, essa é a minha visão sobre a situação, e tentei de alguma forma transpassar como Hobsbawm descreveu a sua visão sobre o breve século XX. Proponho, assim, um exercício: pensar o presente como História, e usando ferramentas como os memes. Esse exercício é um ato de construção de memória e também daquilo que virá.
Afinal, como escreveu o próprio Hobsbawm, prever o futuro tornou-se impossível, mas isso não nos impede de analisá-lo a partir dos sinais do nosso tempo. Os memes que criamos, compartilhamos e rimos hoje não são apenas distrações: são, também, documentos do agora. Mostram o que sentimos, o que tememos, o que criticamos. E, quem sabe, o que esperamos.
Por isso, convido você, leitor ou leitora, a fazer esse exercício histórico-crítico: que História está sendo feita agora? Que “era” estamos vivendo? E como vamos contar esse capítulo da História no futuro?
REFERÊNCIAS:
HOBSBAWM, Eric J. Capítulo 18: O Presente como História. In: _______________. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras. 2013. pp: 244 – 256
SCHWRCZ, Lilia M. O século 21 só começa depois da pandemia. Direção: Newman Costa. Produção: Fernando Barbosa. Intérprete: Lilia Schwarcz. Roteiro: Lilia Schwarcz. São Paulo: UZMK, 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dXHnwrT9asg. Acesso em: 12 jun. 2020.
TASSOULAS, Stephanie Jimenes. Sobre(vivendo) aos fatos históricos. Curitiba, 1 abr. 2020. Disponível em: https://www.linkedin.com/pulse/sobrevivendo-aos-fatos-hist%C3%B3ricos-stephanie-jimenes-tassoulas/. Acesso em: 12 jun. 2020.

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