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Reflexões sobre História e passado

  • Foto do escritor: Vivian Maria Korb
    Vivian Maria Korb
  • 9 de jul. de 2020
  • 3 min de leitura

Atualizado: 12 de jul. de 2020

Obra de referência: “A História Repensada” (2001) de Keith Jenkins.


Você já parou para pensar se História e passado são a mesma coisa? Ou se em algum momento já utilizou um para se referir ao outro? Será que a “História” é o “passado” e o “passado” é a “História”?


Não podemos negar que “História” e “passado” estão sim conectados, podemos até dizer que eles passeiam de mãos dadas, mas estão longe de terem o mesmo significado.


O passado pode ser visto como o objeto de estudo do historiador, sendo que, são as pistas deixadas pelo passado e a maneira como elas serão estudadas que darão origem à História. E é muito importante destacar a utilização da palavra pistas, pois o historiador não tem acesso ao passado em sua plenitude, o passado já foi, ele não existe mais. O que permanece são seus vestígios, que serão utilizados como fonte para a construção do conhecimento histórico.


Podemos pensar na história, com h minúsculo, como “o que é escrito/registrado sobre o passado”, é um discurso produzido sobre ele, uma narrativa. História, com H maiúsculo, é a ciência histórica, composta por um conjunto de discursos que utilizamos para entender o mundo. Se debruçar sobre o passado e produzir os discursos que compõem a História é o que conhecemos como historiografia: é o “fazer” dos historiadores.


Discursos esses que não correspondem à concretude do mundo, ou seja, ao que ele é, mas que dão significado a ele.


Tendo isso em mente, é fundamental ressaltar que o discurso produzido sobre determinado acontecimento é diferente do acontecimento em si. Por exemplo: o que eu escrevo sobre a Independência do Brasil não corresponde à exatidão da totalidade desse acontecimento no passado.


Para compreender isso melhor vamos refletir por um momento sobre a tela “A Traição das Imagens” (1929) de René Magritte, um dos maiores nomes do Surrealismo.


Essa obra é composta pela pintura de um cachimbo e, logo abaixo, pela frase “Isto não é um cachimbo”. Nessa obra o pintor busca chamar atenção para os limites da representação artística e a sua diferença do objeto real. Ou seja, a pintura do cachimbo não é o cachimbo enquanto um objeto real. Essa obra pode gerar inúmeras análises, mas, para atingir o objetivo desse texto, pensemos na sua relação com a História e o passado: vamos imaginar que o cachimbo é o passado e o quadro é a história. Sendo assim a pintura do passado, que nada mais é do que a história, não é o passado em si, mas somente uma construção (um discurso) sobre o mesmo.


Sendo assim, quando consideramos que passado e história (narrativa) são coisas distintas e que a História corresponde aos discursos produzidos sobre o passado, excluímos a possibilidade de uma ciência histórica absoluta e estática. Cada discurso historiográfico carrega sua própria verdade e compõem um grande conjunto de diferentes abordagens teóricas e linhas de pensamento que juntos compõem o que conhecemos por História.


Resumindo, temos o “passado”, que não existe mais, temos a “história”, ou seja, a narrativa/discurso produzida sobre o passado com base em seus vestígios, e temos a “História”, a ciência histórica formada por um conjunto variado de discursos. Mesmo que muito próximos, eles são distintos.


Eu particularmente acho libertador e assustador ao mesmo tempo. Libertador, pois a História não está presa dentro de uma bolha no passado, ela é fruto do presente e da ação dos historiadores na contemporaneidade. Assustador, pois chegamos à realização de que o passado, nosso objeto de estudo primordial, é inalcançável. Sendo assim, até que alguém invente uma máquina do tempo, os historiadores permanecem reféns das pistas e vestígios deixados pelo passado.


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